InterCAPS reúne usuários de nove municípios em Pará de Minas
O Centro Esportivo Professor Daniel de Oliveira Barbosa recebeu nesta sexta-feira, 26, a quarta edição do InterCAPS, iniciativa que utiliza o esporte como ferramenta de promoção da saúde mental, fortalecimento de vínculos e ampliação da autonomia de pessoas em tratamento pelos efeitos do uso abusivo de álcool e outras drogas. O evento é organizado pela Comissão Organizadora da Liga dos Campeões e conta com o apoio da Prefeitura de Pará de Minas, por meio da Secretaria Municipal de Saúde.
Participam desta edição usuários dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) de Pará de Minas, Nova Serrana, Lagoa da Prata, Bom Despacho, Formiga, Oliveira, Carmo do Cajuru, Pompéu e outros municípios da região, transformando a competição esportiva em um importante espaço de convivência, acolhimento e reconstrução de trajetórias.
Muito mais do que um torneio de futebol, o InterCAPS consolidou-se ao longo dos últimos anos como uma estratégia terapêutica capaz de promover autoestima, pertencimento social e novas perspectivas de vida para pessoas que enfrentam o sofrimento psíquico e os desafios decorrentes da dependência química.
Durante a abertura oficial do evento, o vice-prefeito Luiz Lima destacou a importância da iniciativa para o fortalecimento das redes de atenção psicossocial da região.
"Sem dúvida nenhuma, este é um momento muito importante de troca de experiências e também de estímulo para o desenvolvimento e o tratamento de cada um desses usuários. Receber o InterCAPS aqui em Pará de Minas, com cerca de nove municípios participando, representa uma grande promoção da saúde e também do esporte."
Segundo ele, além do aspecto terapêutico, o torneio contribui diretamente para a criação de vínculos afetivos e para o fortalecimento da rede de cuidados em saúde mental.
"Nós sabemos que o esporte cria experiências, fortalece vínculos afetivos e, principalmente, promove cuidado, carinho e sensibilidade com todos os assistidos de Pará de Minas e de toda a região."
Luiz também ressaltou o trabalho desenvolvido pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município.
"É uma oportunidade de mostrar à população o excelente trabalho desenvolvido pela nossa RAPS e de reconhecer o profissionalismo e a dedicação de todos os servidores que integram a atenção psicossocial de Pará de Minas."
A coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial de Pará de Minas, a psicóloga Raiane Couto, definiu o InterCAPS como uma verdadeira produção de cuidado, capaz de proporcionar autonomia, protagonismo e fortalecimento dos vínculos sociais.
"O InterCAPS é um espaço de produção de cuidado. Aqui, os usuários vivenciam autonomia, protagonismo e fortalecem vínculos não apenas entre si, mas também com os trabalhadores das diferentes redes."
Para Raiane, a convivência social constitui um dos principais instrumentos terapêuticos na saúde mental.
"A convivência produz saúde. O laço social é aquilo que nos conecta enquanto seres humanos. Por isso, eventos como este possuem um valor terapêutico extremamente importante."
Ela ressalta ainda que iniciativas como o InterCAPS ajudam a desconstruir preconceitos historicamente associados ao sofrimento mental e à dependência química.
"O evento também combate o estigma, porque mostra para toda a sociedade que essas pessoas podem, devem e precisam ocupar os espaços públicos da cidade."
A coordenadora aproveitou para destacar a estrutura da Rede de Atenção Psicossocial existente em Pará de Minas, considerada uma das mais completas da região.
O município conta atualmente com três Centros de Atenção Psicossocial de portas abertas: o CAPSi, destinado ao atendimento de crianças e adolescentes; o CAPS AD, voltado para pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas; e o CAPS III, responsável pelo atendimento de adultos com sofrimento mental grave e persistente.
Além disso, a rede municipal dispõe de 33 psicólogos atuando na atenção primária, garantindo atendimento psicológico em praticamente todas as unidades básicas de saúde, além do funcionamento do Centro de Convivência Social, onde são desenvolvidas oficinas terapêuticas e atividades de socialização.
Um dos idealizadores da competição e integrante da Comissão Organizadora da Liga dos Campeões, o psicólogo Ângelo Antônio Cardoso, que atua no CAPS AD de Itaúna, explicou que o torneio surgiu inicialmente como um intercâmbio esportivo entre municípios e acabou se transformando em uma poderosa ferramenta terapêutica.
"A fase moderna da Liga começou em 2023, mas a ideia nasceu por volta de 2017, em Lagoa da Prata. Após a pandemia, retomamos o projeto com quatro cidades e hoje já reunimos nove municípios."
Segundo ele, o principal objetivo nunca foi a competição esportiva em si.
"O nosso objetivo é produzir alegria, autoestima e saúde de maneira criativa. O tratamento não pode ser composto apenas por medicamentos e consultas."
Ao longo dos anos, Ângelo testemunhou histórias que comprovam o impacto transformador do esporte na recuperação dos usuários.
"Nós temos usuários que passaram a aderir ao tratamento por causa do futebol. Outros guardam suas medalhas e troféus com enorme orgulho em casa. Também tivemos casos de famílias que retomaram vínculos rompidos depois que passaram a acompanhar os jogos."
Para o psicólogo, o esporte cria oportunidades de reconstrução emocional e social que muitas vezes não seriam alcançadas por outras estratégias terapêuticas.
A psicóloga do CAPS AD de Pará de Minas, Cristiana Souza, explica que o esporte permite que os pacientes se reconheçam para além do diagnóstico ou da condição clínica.
"O esporte faz com que eles deixem de se enxergar apenas como dependentes químicos e passem a se perceber como jogadores, atletas e seres humanos ativos."
Segundo ela, a participação nas competições também auxilia no desenvolvimento de habilidades fundamentais para a vida cotidiana.
"Durante o esporte, eles aprendem a lidar com regras, frustrações, ansiedade, paciência e convivência social. São habilidades que vão muito além da quadra."
Cristiana destaca ainda o impacto da experiência na autoestima dos usuários.
"Muitos descobrem que são capazes de competir, de vencer desafios e de participar plenamente da sociedade, mesmo estando em tratamento ou fazendo uso de medicação."
Ela conta que a preparação da equipe de Pará de Minas envolveu semanas de treinamento, convivência e fortalecimento coletivo.
"Foram semanas de treinos, motivação, descontração e fortalecimento dos vínculos. Cada participante já chega aqui vencedor."
Entre os depoimentos mais emocionantes do evento esteve o de Paula Ferreira Pinto, paciente do CAPS AD e atualmente em tratamento em uma comunidade terapêutica de Pará de Minas.
Estudante de Educação Física, Paula descreveu o esporte como um dos principais instrumentos para sua recuperação.
"O esporte ativa a mente, libera endorfina e proporciona uma alegria verdadeira, que não existe no álcool nem nas drogas."
Ela relata que a participação no InterCAPS representa um sentimento de liberdade e pertencimento.
"Aqui eu me sinto acolhida, aceita, sem julgamento. É uma sensação de liberdade muito grande."
Paula também relembra que o processo de recuperação só foi possível graças ao acolhimento recebido no CAPS.
"Foi no CAPS que eu encontrei apoio, carinho e novas possibilidades. Lá eu aprendi, inclusive, a tocar violão. Isso me ajudou muito a enfrentar a depressão e a dependência química."
Em um depoimento marcado pela emoção, ela deixou uma mensagem para pessoas que ainda enfrentam o sofrimento causado pelo uso abusivo de álcool e outras drogas.
"Eu quero dizer para quem está sofrendo que procure ajuda e não tenha vergonha. A vida nas drogas e na rua é muito triste. Existe tratamento, existe acolhimento e existe possibilidade de recomeço."
Ao reunir esporte, saúde, convivência e cidadania, o InterCAPS reafirma um princípio cada vez mais consolidado na atenção psicossocial brasileira: cuidar da saúde mental significa também promover pertencimento, autonomia, vínculos sociais e oportunidades reais de reconstrução da vida.
Mais do que disputar partidas, os participantes do torneio entram em quadra para celebrar conquistas que começaram muito antes do apito inicial: a coragem de buscar ajuda, a decisão de permanecer no tratamento e a esperança de construir novos caminhos.