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Campanha alerta sobre riscos das apostas online e reforça rede de apoio em saúde mental em Pará de Minas

A Prefeitura de Pará de Minas, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, lançou a campanha "Quando o jogo deixa de ser diversão", iniciativa voltada à conscientização da população sobre os riscos das apostas eletrônicas e à divulgação dos serviços públicos de acolhimento e tratamento para pessoas que enfrentam a ludopatia, transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar.

Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno de saúde mental, a ludopatia ganhou novos contornos nos últimos anos com a popularização das plataformas de apostas esportivas, conhecidas como "bets". O acesso facilitado por smartphones e pela internet fez com que cada vez mais pessoas passassem a enxergar as apostas como uma possibilidade de renda, quando, na realidade, podem desencadear graves consequências financeiras, emocionais e sociais.

Em Pará de Minas, a Secretaria Municipal de Saúde estruturou uma rede de atendimento que tem como porta de entrada as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e, quando necessário, realiza o encaminhamento para os serviços especializados da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), composta pelos CAPS II, CAPS AD e CAPSi.

A coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial, a psicóloga Raiane Couto, explica que o crescimento das apostas online tem provocado um aumento significativo na complexidade dos atendimentos em saúde mental.

"O fenômeno das apostas, que chamamos tecnicamente de ludopatia, ganhou muita notoriedade com o surgimento das famosas bets. A facilidade de acesso à internet e fatores socioeconômicos fazem com que muitas pessoas enxerguem essas plataformas como uma forma de complementar a renda, quando elas acabam sendo divulgadas, de forma equivocada, apenas como entretenimento."

Segundo Raiane, esse cenário tem agravado quadros já existentes e provocado o surgimento de novos casos.

"Percebemos que pessoas que já apresentavam algum sofrimento psíquico acabam tendo esse quadro agravado, enquanto outras desenvolvem novos transtornos associados ao jogo. O impacto não é apenas financeiro. Ele atinge as relações familiares, o convívio social, o ambiente de trabalho e provoca muito sofrimento."

A psicóloga ressalta que a praticidade das apostas eletrônicas torna o problema ainda mais difícil de ser percebido.

"Hoje a pessoa consegue jogar em qualquer lugar e a qualquer momento, muitas vezes sem que ninguém ao redor perceba. Isso faz com que o comportamento compulsivo permaneça oculto durante muito tempo."

Outro aspecto preocupante, segundo ela, é a falsa sensação de controle sobre os resultados das apostas.

"Muitas pessoas acreditam que existe lógica ou estratégia capaz de garantir ganhos. O que acontece é o que chamamos de 'perseguição pelo erro': a pessoa sempre acredita que a próxima aposta será a que vai recuperar todas as perdas. Assim ela entra em um ciclo vicioso que pode levar ao endividamento e ao sofrimento intenso."

Para enfrentar esse cenário, a Secretaria Municipal de Saúde investiu na capacitação dos profissionais da rede.

"Participamos de um curso promovido pelo Ministério da Saúde para preparar nossas equipes. Hoje todas as Unidades Básicas são porta de entrada para o cuidado em saúde mental. Cada UBS conta com um psicólogo que, junto com a equipe multiprofissional, realiza a avaliação inicial e, quando necessário, encaminha o paciente para um dos CAPS."

Raiane destaca que o atendimento é voltado para a pessoa como um todo, e não apenas para o comportamento relacionado às apostas.

"Nosso cuidado é centrado no sofrimento da pessoa e não apenas no jogo em si. Buscamos compreender toda a situação vivenciada por ela para oferecer o tratamento mais adequado."

Ela também chama atenção para o perfil dos usuários que procuram atendimento.

"Observamos que os homens costumam apostar mais, mas são justamente eles que menos procuram ajuda. Isso faz com que muitos cheguem aos serviços já em situações bastante graves."

A orientação é que ninguém espere o agravamento do quadro para buscar atendimento.

"Qualquer Unidade Básica de Saúde pode fazer esse acolhimento. Basta procurar a recepção e conversar com a equipe. Além disso, todos os CAPS funcionam com porta aberta, sem demanda reprimida."

Responsável pelo CAPS AD, o enfermeiro Alisson Soares afirma que a dependência em apostas costuma evoluir de maneira silenciosa e frequentemente está associada a outros problemas de saúde mental.

"A dependência em jogos é um problema silencioso e muito grave. Em muitos casos ela aparece associada ao uso de álcool, outras drogas, depressão e isolamento social."

Segundo ele, a regulamentação das plataformas e a ampla divulgação nas redes sociais ampliaram ainda mais o alcance das apostas.

"Depois de 2023, com a regulamentação das bets, o acesso ficou muito mais fácil por meio dos smartphones. Muitas plataformas são divulgadas por influenciadores como uma forma de renda fácil, o que acaba atraindo muitas pessoas."

Alisson explica que o funcionamento dessas plataformas favorece o desenvolvimento da compulsão.

"Muitos usuários entram nessa realidade de forma inocente. As plataformas permitem começar com apenas R$ 20 e, muitas vezes, oferecem pequenos ganhos no início. Depois, a pessoa passa a perder cada vez mais. É um sistema em que muitos perdem para que poucos ganhem, criando um vício do qual dificilmente alguém consegue sair sozinho."

Por isso, ele reforça que o acolhimento oferecido pela rede municipal acontece sem julgamentos.

"Nosso papel é acolher essas pessoas. A compulsão é uma doença que precisa de tratamento. Não estamos aqui para julgar ninguém, mas para ajudar e envolver também a família nesse processo de recuperação."

Além das perdas financeiras, o enfermeiro destaca que a ludopatia compromete diversos aspectos da saúde.

"O vício desestrutura o ambiente familiar, provoca isolamento social e também causa adoecimento físico. Muitas pessoas deixam de se alimentar adequadamente, desenvolvem quadros intensos de ansiedade e passam a ter dificuldade para manter relações sociais."

Para familiares e amigos, alguns sinais podem indicar que a pessoa precisa de ajuda.

"É importante observar mudanças de comportamento, como isolamento, uso excessivo do celular, dificuldades para cumprir compromissos financeiros, endividamento e até mesmo a venda de objetos para pagar dívidas. Esses são sinais importantes de alerta."

Nessas situações, a recomendação é procurar os serviços públicos de saúde o quanto antes.

"Quem identificar esses sinais deve buscar uma Unidade Básica de Saúde ou um CAPS. Existe tratamento e nossa equipe está preparada para acolher cada pessoa de acordo com suas necessidades."

Os atendimentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) acontecem de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h, enquanto as UBSs permanecem como a principal porta de entrada para quem busca apoio em saúde mental. Com a campanha "Quando o jogo deixa de ser diversão", a Prefeitura de Pará de Minas pretende ampliar o conhecimento da população sobre a ludopatia, incentivar a busca precoce por tratamento e reforçar que a compulsão por apostas é uma condição de saúde que pode e deve ser tratada com acolhimento, acompanhamento profissional e apoio familiar.

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